Este é meu último show.
Vou sair daqui e dizer para o Albert que não consigo mais. Não importa o que ele prometa, vou declinar de vez, para sempre…Eu comecei bem, gostava de música, levava jeito para a coisa. Pelo menos era o que dizia o meu professor, mas não sei… Também, fazer sucesso hoje em dia depende muito mais de outros fatores do que da sua vocação, esforço pessoal ou – o que mais me incomoda – a qualidade do som. Mas eu cheguei até aqui por mérito. Só eu sei por quantas horas de ensaio e de encheções de saco passei. Sei lá. Pouco importa também. Há tantos querendo o meu lugar que vão vibrar quando souberem que parei.
Eu sei porque minha vida está uma merda. Eu fiz fama muito rápido, foi isto. Entretanto, este sucesso repentino não foi a toa, é fruto do meu talento. Sei cativar o público como ninguém. Cativar o público, que engraçado. Eu li aquele cara dizendo que todo charlatão é simpático, eu sempre lembro disto. Ainda bem que não é o meu caso. Quem não tem talento não vende tanto. Olha isto, todas estas pessoas gritando para mim, quem não queria estar no meu lugar agora? Que êxtase! Deve ser nisto que os artistas viciam. Não me importo, vou parar.
Mas bem que poderia ter sido mais lento, mais gradual, para eu ir melhorando meu estilo. Tenho desgosto de tocar minhas músicas porque sei em cada uma a parte que tirei daquele americano, na outra o que copiei do inglês e assim vai, com todas. Não há nada realmente Meu no meu som. Sou só influências. Como uma escultura de argila na qual cada produtor ou empresário que passou, deixou sua marca degenerativa. Agora estou aqui, sub-produto de psiquismos gananciosos. Minha sorte é que as pessoas não entendem nada do que ouvem e acabam gostando sempre das mesmas coisas. Não percebem que compram melodias enlatadas, previsíveis e repetitivas. Posso até criar um hit simplesmente colocando as notas no Excel. Só percebem aqueles maníacos dos blogs que ficam o dia inteiro procurando plágios. Estes caras não precisavam ter nascido. Ainda bem que quase ninguém sabe que eles existem, e que continue assim no ostracismo. Entretanto se eu saísse, poderia dar força para eles. Contar a verdade sobre o que fazemos. Até divulgá-los, quem sabe.
Dizem que cada pessoa é única, então se eu fizesse música com o que há no meu âmago seria inquestionavelmente original. Talvez não fosse a melhor, mas certamente seria única. Imagine ter algo que é só seu? Um estilo próprio que no primeiro acorde as pessoas já identificam – um sonho. Mas pode ser que o que há dentro de mim seja tão imprestável que nem para surdo eu venderia. É mais fácil ficar com as referências, não há risco. E é o que quase todo mundo faz mesmo, ninguém se importa, o importante é o sucesso. Mesmo que eu saiba que um sucesso escorado em referências não se sustente por muito tempo. Então, já que não vai durar, eu poderia aproveitar até o final e depois largo. É, isto faz mais sentido.
Agora a música que toca na rádio. Olha como eles vibram. Eu não agüento mais ouvi-la. E eles comemoram. Eu admiro aqueles caras que vão para o show e não tocam os hits, este sim são músicos de verdade. Pelo menos quando eu sair daqui terão muitas meninas implorando para entrar no meu camarim. Já treinei o Zé para saber o meu gosto. Ele quase nunca erra, só deixa passar as melhores. Quando eu comecei só pensava neste dia, as pessoas lá embaixo gritando o meu nome. Agora que estou nele não vejo a hora de sair, quero que todos me esqueçam. Não consigo enxergar significado nesta babaquice. Nem sei direito porque estou aqui. Eu deveria estar feliz, muito feliz, pulando de felicidade. Minha mãe está, por mim. Todos querem o que eu tenho, fama.
Ahhhh a fama. A fama é como uma comida exótica que todos desejam, mesmo sem saber muito bem o que é. A mídia a vende como se fosse o melhor dos mundos, mas aqueles que provam, não parecem gostar. Basta ver suas Caras nas revistas. Mas também nenhum deles desmente. Talvez sintam-se envergonhados de dizer “eu me alimento disto há 12 anos, mas só agora descobri que este doce tem recheio de coliformes fecais.” Todos iriam zombar dele. Seria como o político entregar o esquemão do seu partido. Quem tem coragem?
Eu terei. Acabou a enganação, serei finalmente quem realmente sou. Só desejo um pouco de espontaneidade, ficar sozinho por um tempo, ser Eu. Chega! Vou dizer agora para estes babacas pararem. “Escuta aqui. Se algum de vocês entendesse um pouco de música não estariam gritando. Talvez estivessem vaiando, mas vocês são a maioria e a maioria é sempre burra.” Era isto que eles mereciam ouvir. O que adianta ter reconhecimento deste público. Que nojo! Mas amanhã na entrevista eu falo “eu amo meus fãs” depois eu pisco o olho e sorrio, sempre funciona.
Assim que esta merda terminar vou descer e dizer para o Albert que acabou. Pronto! Já deu! Não quero tudo isto. Quero o simples, algo meu, que me dê prazer, só. Chega de enganar as pessoas. Também ninguém as obrigou a estar aqui, a comprar meus CDs, elas fazem porque querem. Deve fazer bem ouvir esta droga. Normalmente os remédios tem gosto ruim mesmo. Eu faço bem para elas, talvez eu seja um paliativo contra existências medíocres.
A última música… tenho somente mais estes minutos para aproveitar esta energia maravilhosa do meu público. Mas quem que eu quero enganar? Amanhã na entrevista eu vou dizer a verdade. Vou contar que comecei a deslanchar depois que transei com aquela produtora. Que nojo daquela gorda. Está certo que depois veio tanta coisa boa que compensou. Eu não faria de novo, por nada, por sucesso algum.
Já chega. É hora da verdade. Agora quem diz a verdade? Ninguém, o mundo vive de ilusões, só sobrevivemos porque maquiamos a realidade. Talvez eu até seja um bom músico e não saiba. Talvez foram os invejosos sem sucesso que me fizeram crer que o que faço não presta. Se eu disser a verdade serei como um homem honesto numa instituição corrompida chamada sociedade. Me execrarão, me deixarão no limbo como sempre fazem com todos aqueles que expõe a realidade tal como ela é. Será que o público continuaria a me aplaudir se soubesse que me encontro semanalmente com a noiva do meu baterista e que ela jura que me ama mais que a ele? Não a verdade não foi feita para ser dita, mas para ser maquiada, tal como a fama. Algo que todos almejam, mas que só aceitamos se parecer-se com algo que não é. A verdade dói demais, não foi feita para os artistas, preferimos o glamour.
PS: Há tempos buscava uma história que questionasse o sucesso sem realização pessoal. Encontrei esta reflexão neste blog e achei que aí estava a história que eu queria contar.